
Nova matriz preliminar do Enem: quais habilidades cognitivas passam a orientar a elaboração das questões?
A nova matriz preliminar do Enem organiza a avaliação em torno de processos cognitivos explicitamente definidos: lembrar, compreender, aplicar, analisar e avaliar. A principal mudança está na maneira como esses processos são relacionados aos conhecimentos de cada área, permitindo identificar com maior precisão qual operação intelectual o estudante precisa realizar para responder a uma questão.
Na proposta, as habilidades deixam de aparecer apenas como descrições amplas de aprendizagens esperadas e passam a integrar uma estrutura que articula dois eixos: o conhecimento mobilizado e o processo cognitivo exigido. Essa organização oferece referências mais específicas para a elaboração de itens, a construção de simulados e a interpretação dos resultados das avaliações.
O documento ainda é preliminar, mas já permite compreender algumas mudanças importantes na concepção das questões do Enem e suas implicações para o trabalho pedagógico das escolas.
Como os processos cognitivos aparecem na nova matriz do Enem?
A nova proposta apresenta quatro matrizes, uma para cada área do conhecimento. Todas são organizadas em tabelas que relacionam competências, conhecimentos e processos cognitivos.
Os cinco processos presentes no documento são:
- Lembrar: recuperar ou reconhecer informações, características e elementos relevantes para determinada tarefa. - Compreender: interpretar conceitos, relações, fenômenos e informações, demonstrando entendimento de seus significados. - Aplicar: mobilizar conhecimentos e procedimentos para resolver situações-problema. - Analisar: examinar relações, estruturas, dados e evidências para compreender como determinados fenômenos ou argumentos se constituem. - Avaliar: realizar julgamentos fundamentados, considerando critérios, evidências, consequências ou a adequação de propostas e estratégias.
Essas definições ajudam a interpretar a natureza das operações intelectuais indicadas na matriz. Entretanto, há uma particularidade importante: os cinco processos não aparecem simultaneamente em todas as áreas.
Em Linguagens e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, os processos previstos são lembrar, compreender, analisar e avaliar. Já em Matemática e Ciências da Natureza, aparecem compreender, aplicar, analisar e avaliar.
Essa diferenciação mostra que a proposta não pretende submeter todas as áreas a uma sequência idêntica de operações cognitivas. Cada matriz seleciona os processos que estruturam suas habilidades, considerando as características dos conhecimentos avaliados.
Outro aspecto relevante é que a complexidade de uma questão não pode ser determinada apenas pelo verbo utilizado. Uma questão de compreensão pode exigir a articulação de diferentes informações, enquanto uma questão de análise pode apresentar baixa dificuldade para estudantes familiarizados com aquele tipo de tarefa.
Portanto, processo cognitivo e dificuldade do item são dimensões distintas da avaliação.
O que muda na elaboração das questões em cada área do conhecimento?
A organização da nova matriz permite observar como um mesmo campo de conhecimentos pode originar questões que exigem operações cognitivas diferentes.
Linguagens: da identificação de recursos à avaliação de estratégias discursivas
Em Língua Portuguesa, a matriz diferencia explicitamente tarefas de identificação, análise e avaliação textual.
Na leitura, por exemplo, estão previstas habilidades como identificar formas de organização textual, analisar relações de intertextualidade e avaliar os argumentos utilizados para sustentar posicionamentos.
Isso permite distinguir questões que exigem reconhecer características de um texto daquelas que demandam examinar relações entre discursos ou julgar a consistência de uma argumentação.
Na análise linguística e semiótica, a habilidade de avaliar o uso de modalizadores ou estratégias de impessoalização também explicita uma operação mais específica: compreender como determinadas escolhas linguísticas contribuem para construir efeitos de parcialidade ou imparcialidade.
Para a elaboração de itens, essa distinção é importante porque uma mesma notícia, artigo de opinião ou campanha publicitária pode servir de estímulo para avaliar processos cognitivos diferentes.
Matemática: compreender, aplicar, analisar e avaliar procedimentos e soluções
A matriz de Matemática organiza os conhecimentos em números e álgebra, geometria e medidas, probabilidade e estatística, além de conhecimentos transversais.
Uma diferença importante está na separação entre aplicar procedimentos matemáticos e analisar dados ou avaliar propostas utilizando conhecimentos matemáticos.
Considere uma situação envolvendo o consumo de energia elétrica de uma residência.
Uma questão de aplicação pode exigir o cálculo do consumo ou do custo a partir de informações fornecidas. Uma questão de análise pode solicitar a interpretação de dados de consumo ao longo de vários meses. Já uma questão de avaliação pode apresentar diferentes propostas para reduzir despesas e exigir a identificação daquela que melhor atende a critérios estabelecidos.
O conhecimento matemático mobilizado pode ser semelhante, mas a operação cognitiva solicitada muda.
Essa diferenciação contribui para a elaboração de instrumentos que investiguem não apenas se o estudante consegue executar um procedimento, mas também se consegue utilizar conhecimentos matemáticos para interpretar informações e fundamentar decisões.
Ciências Humanas: analisar processos e avaliar dilemas
Em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, a matriz explicita habilidades relacionadas à interpretação de processos históricos, políticos, econômicos, sociais e ambientais.
Entre elas estão analisar processos de estratificação e desigualdades sociais a partir de indicadores socioeconômicos e avaliar dilemas ético-políticos em diferentes contextos espaço-temporais.
A elaboração de uma questão sobre desigualdade social, por exemplo, pode exigir que o estudante relacione indicadores de renda, escolaridade e condições de vida para analisar um fenômeno. Já uma questão sobre decisões políticas pode solicitar a avaliação de alternativas diante de princípios éticos em conflito.
Nesse caso, a exigência cognitiva está relacionada à qualidade da interpretação e à capacidade de estabelecer relações fundamentadas, não apenas ao reconhecimento de acontecimentos ou conceitos.
Ciências da Natureza: aplicar modelos, analisar fenômenos e avaliar riscos
A matriz de Ciências da Natureza distingue a compreensão de conceitos científicos, a aplicação de fundamentos, a análise de fenômenos e a avaliação de efeitos e riscos.
Em matéria e energia, por exemplo, estão previstas habilidades de analisar transformações e transferências de energia, examinar propriedades dos materiais e avaliar a eficiência de recursos renováveis ou não renováveis na geração de energia.
Na elaboração de questões, isso permite trabalhar um mesmo fenômeno sob perspectivas diferentes.
Um item pode solicitar a aplicação de um princípio físico para resolver uma situação-problema. Outro pode exigir a análise de transformações de energia. Um terceiro pode apresentar alternativas de geração energética e solicitar uma avaliação fundamentada em critérios de eficiência e impactos socioambientais.
A proposta também inclui, entre os conhecimentos transversais, a compreensão da fidedignidade de informações científicas e a análise de representações não verbais, como gráficos, diagramas e modelos.
São habilidades que exigem atenção especial à seleção dos estímulos e à formulação dos comandos das questões.
Como a nova matriz pode melhorar a qualidade dos simulados e das avaliações?
A explicitação dos processos cognitivos oferece uma referência importante para o planejamento das avaliações. Entretanto, utilizar os verbos da matriz não é suficiente para garantir que um item efetivamente avalie a habilidade pretendida.
É necessário assegurar coerência entre o conhecimento selecionado, a operação cognitiva, o estímulo apresentado, o comando da questão e as alternativas de resposta.
Se a intenção é avaliar a capacidade de analisar dados, por exemplo, a resposta correta precisa depender da interpretação das relações entre esses dados. Uma questão cuja solução possa ser encontrada pela simples localização de uma informação não necessariamente avalia análise, mesmo que seu comando utilize o verbo "analisar".
Essa distinção é central para a validade do instrumento: a questão precisa produzir evidências da habilidade que se pretende medir.
Também é necessário considerar a distribuição das habilidades ao longo da avaliação. Um simulado pode contemplar diversos conteúdos de Matemática e, ainda assim, concentrar suas questões apenas na aplicação de procedimentos, deixando pouco espaço para análise de informações e avaliação de propostas.
Uma matriz de referência bem operacionalizada permite examinar esse equilíbrio e identificar eventuais lacunas na cobertura das habilidades.
Além disso, a qualidade dos itens depende de processos técnicos que ultrapassam sua classificação na matriz. Pré-testagem, análise estatística, investigação do funcionamento das alternativas e calibração dos parâmetros dos itens são fundamentais para produzir medidas confiáveis de proficiência.
Na TRIEduc, a elaboração e a análise de avaliações educacionais são orientadas pela Teoria de Resposta ao Item (TRI), que permite considerar características estatísticas das questões na estimação da proficiência dos estudantes.
A articulação entre uma matriz de referência bem definida e instrumentos tecnicamente qualificados contribui para transformar os resultados dos simulados em informações mais úteis para o planejamento pedagógico.
O que as escolas devem observar enquanto a matriz ainda é preliminar?
A publicação da versão preliminar não significa que as escolas devam reformular imediatamente seus currículos ou assumir que a estrutura apresentada será integralmente mantida na versão definitiva.
O documento, porém, já oferece uma oportunidade para qualificar a análise dos instrumentos utilizados na preparação dos estudantes.
Um primeiro passo é verificar se as avaliações aplicadas atualmente distinguem efetivamente as operações cognitivas exigidas pelas questões. Também é importante observar se os resultados permitem identificar dificuldades relacionadas a processos específicos, em vez de apresentar apenas o percentual de acertos por conteúdo ou disciplina.
Essa leitura exige cuidado. O erro em uma questão de análise, por exemplo, não permite concluir isoladamente que o estudante tem dificuldade geral de analisar. A interpretação depende da qualidade do item, do conhecimento mobilizado, de sua dificuldade e do conjunto de evidências disponíveis.
Outro ponto é acompanhar a evolução oficial da proposta antes de estabelecer correspondências definitivas entre a matriz preliminar e os instrumentos de avaliação.
Para as escolas, o caminho mais consistente é utilizar o documento como referência de estudo e aperfeiçoamento das práticas avaliativas, mantendo atenção às definições que ainda poderão ser consolidadas.
A nova organização da matriz reforça uma exigência importante para a avaliação educacional: não basta identificar quais conhecimentos foram contemplados em uma prova. É necessário compreender quais operações cognitivas os estudantes precisam mobilizar e se as questões são capazes de produzir evidências válidas dessas aprendizagens.
Esse é um aspecto decisivo para que os simulados contribuam não apenas para a preparação para o Enem, mas também para diagnósticos pedagógicos mais precisos.
Converse com um consultor da TRIEduc para conhecer soluções de avaliação que combinam elaboração técnica de itens, análise de proficiência e informações para orientar decisões pedagógicas.
Leia também
Para aprofundar a discussão sobre habilidades cognitivas e qualidade das avaliações, selecionamos quatro artigos do blog da TRIEduc:
- Avaliar conteúdo e avaliar habilidade: a diferença está menos no objetivo da escola e mais na qualidade do instrumento — Explica como questões sobre um mesmo conteúdo podem avaliar diferentes operações cognitivas e por que isso depende da construção do instrumento.
- Como saber se uma habilidade realmente foi aprendida — ou apenas decorada — Discute como distinguir reconhecimento de informações, compreensão, aplicação e análise na interpretação dos resultados.
- Como avaliar alunos com diferentes níveis de aprendizagem no Ensino Médio com mais precisão — Mostra como a TRI e os testes adaptativos contribuem para medir estudantes com diferentes níveis de proficiência.
- Decisões escolares embasadas em dados: a importância da análise das avaliações educacionais — Aborda como transformar resultados de avaliações em informações para o planejamento pedagógico.
